Já faz certo tempo, estatísticas apontavam que o brasileiro médio lia menos de 2 livros por ano. A época, muitas pessoas criticaram a constatação, afirmando que “um país que quer crescer tem de ler bastante”.Não discordo da afirmação, mas devo ressaltar uma questão que afeta a todos, na hora de comprar qualquer coisa:o preço.
Existem controvérsias quanto as causas desse fato. Alguns dizem que o brasileiro lê pouco por desinteresse, pelo alto preço dos livros, pelo ritmo de cidade grande que grande parte do país vive, ou por qualquer outra razão. Pelo menos na questão dos livros, a alternativa que encontramos para contornar esse problema foram os sebos.
Para os que não sabem, os sebos são lojas, que podem ter vários andares, repletos de estantes, as quais estão cheias de livros. Mas quando eu digo cheias, elas realmente estão cheias. Tão cheias que estão, muitas vezes ao tirar um livro para folheá-lo, quase não é possível colocá-lo de volta.
A coleção de livros não está nas estantes, apenas. Coleções embrulhadas em papel filme, livros raros, livros empilhados, montanhas de livros, de tudo onde resida literatura há um pouco em um sebo. Livros, revistas, almanaques, coleções, para todos os gostos e necessidades. Tratados de Filosofia, livros didáticos, os livros que são cobrados a cada ano no vestibular, enfim, realmente tudo.
Já topei com algumas coisas curiosas, quando visitava mais os sebos. Livros relativos a engenharia anteriores a 1950, livros de física espanhóis da década de 30, dicionários da língua portuguesa do final do século 19.O que chega mais perto de uma curiosidade dessas que eu consegui arrematar foi um livro de física soviético, da década de 60(acredito).Como ele usa matérias de cálculo, acredito que terei de usá-lo para estudar inglês(idioma no qual o livro está escrito).
Assim como os livros, esse tipo de lugar pode nos ensinar um monte de coisas. Um exemplo é a importância de ser organizado(se muitas vezes com os índices presentes nos sebos é difícil achar o que se quer, imagine se não houvessem os índices).Outra dessas lições é nunca desistir do que se quer e sempre estar atento a tudo(vai que o livro que você queria, pelo preço que você pode pagar, está em outro lugar?).
Agora, uma lição bem importante que todo comprador de livros em sebos já deve ter percebido, é sempre conservar bem os seus livros. Livros paradidáticos, didáticos, enfim, todos os livros(os de colorir não contam por razões óbvias).
Para as crianças ou até pessoas da minha idade(lá nos seus 17, 18 anos), que estão se perguntando qual o porque de conservar seus livros, a resposta é bem simples. Existem dois problemas em jogo. Suponho que vocês, jovens leitores, costumem comprar livros novos(afinal, os que um dia compraram livros em sebos, sabem qual é a lição da qual eu falo).
Alguns livros novos vem soltos, literalmente prontos para serem usados. Outros, vem dentro de um plásticos. Estes últimos tendem a ter, como os carros, o cheiro de livro novo, provavelmente advindo da cola e de outros compostos químicos. Doce cheiro...
Estes livros novos vem em um estado ímpar. Até porque, obviamente, não foram usados. Com o passar do tempo, dobras se formam, orelhas aparecem, pequenos rasgos aparecem, as bordinhas da capa se desgastam. Além do que, os sucessivos usos do livro como apoio para se escrever algo acabam por revelar diversas cartas, notas fiscais, bilhetes de telefones, que um dia foram escritos em sua superfície. Tudo e mais um pouco disso embaralhado nas ranhuras da capa, que atuam como uma espécie de segredo que se esconde automaticamente.
No caso dos livros paradidáticos, eles acabam o ano assim. Em alguns casos, mantém seu ar de livro, como um guerreiro que após chuva, entradas e retiradas de mochilas, ajudou um estudante a estudar, e vê nas férias o seu repouso. Se este estudante possui irmãos, provavelmente as férias do estudante serão as férias do livro.
Em outros casos, todavia, o livro guerreiro chega ao final do ano quase que no final de sua vida útil(se é que este conceito se aplica a livros).Nos casos mais extremos, a capa e até a contracapa viraram história, sendo lembradas por pequenos fiapos de papel que se desprendem do “miolo” do livro.
Esses casos são exceções. Exceções relativamente frequentes, mas tudo bem. Na maioria das vezes, observa-se ou que páginas de exercícios estão preenchidas a caneta(para o sacrifício de nossas borrachas, temos sorte de pegarmos livros com inscrições a lápis), ou que certos estudantes possuem um furor literário(como diria uma professora) e resolvem escrever nos espaços vazios do livro. Em outro caso mais tristes, as figuras do livro, assim como textos, são vandalizados.
Certo. Sem interpretações maliciosas, o ato foi consumado, e o livro não consumível foi consumido. Não há nem razão nem motivo para pânico. Há, sim, uma razão para se pensar. Assim como queimar um livro(ato extremamente associado com regimes ditatoriais) é um ato dotado de uma tremenda idiotice, a mesma coisa se aplica quando danificamos um livro.
A grande maioria dos livros são bens de consumo duráveis, ou seja, eles não se esgotam no ato da utilização. Assim como casas e carros, após o uso, eles sofrem certa desvalorização, mas ainda possuem um preço de revenda. Esse preço de revenda, assim como em carros, é dado tanto em função da margem de lucro do sebo, onde você vai vender o livro, assim como o seu estado de conservação.
Não quero vender os meus livros. Você tem certeza?Suponhamos que você tenha uma recomendação, ou tenha de comprar um outro livro. Ao vender seus livros velhos, você vai economizar na compra de novos(ou quem dirá na compra de novos livros usados?).Agora, uma chave para conseguir o máximo possível é manter os seus livros bem conservados.
Imagine-se como comprador. Acredito que, assim como eu, você sempre procure o melhor produto pelo menor preço. Recentemente, fui procurar um livro de física em sebos, devido ao problema que eu tive com o anterior. Topei com um livro, daqueles de volume único, que aparentemente tinha dois autores. No mau sentido. Aparentemente, o segundo autor do livro gostava de ressaltar informações em seu livro, com o uso das infames canetas marca-texto(que lembravam o uniforme de um certo time paulista), além de ser um aspirante a desenhista.
Curiosamente, o segundo autor também deixou uma mensagem para a posterioridade no livro. Infame ou não, nem dei-me ao trabalho de ler, e acredito que não preciso dizer o quão pra baixo tinha ficado ao ver o estado do pobre livro. Mais algumas horas de andança e consegui achar um outro livro de física, muito bem conservado. Com o uso de uma velha artimanha, a qual dizem que os árabes apreciam, chamada de pechincha, reduzi um pouquinho o preço do livro, o suficiente para “amortizar” o refrigerante típico de final de passeio.
Alunos e professores, antes de escrever em um livro(não consumível), pensem na trajetória que esse livro poderá seguir. Pensem no quanto ele pode ajudar uma pessoa a conseguir algo em especial, seja uma boa nota em uma prova, seja uma vaga em uma grande universidade, ou no prazer que ele pode proporcionar a uma pessoa(afinal, quem disse que estudos só devem ser obrigação?).
Resumindo, e repetindo o título do texto, crianças, cuidem de seus livros!
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